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Brasil Para Maiores #7: pirataria e tragédia de Leila Lopes encerram era dos famosos no pornô

da dicas bet: A era mais polêmica e midiática do pornô brasileiro chega ao fim marcada por uma história trágica e pela invasão do streaming — algo que mudou para sempre a forma com que as pessoas consomem pornografia.

da Brasileirao Feminino A-1: Foi um produtor e diretor de cinema adulto alternativo quem percebeu que o futuro estaria na internet, e não na venda de cópias físicas de DVD. Roy Di Paul, fã assumido de filmes pornôs, criou junto com amigos a produtora Xplastic em 1997. O selo fazia filmes fora do padrão da época. À margem da indústria e observando as celebridades buscando grana e reconhecimento, Roy apostou na internet para vender seu conteúdo e criar uma base de consumidores.

Enquanto a Brasileirinhas e outras grandes produtoras da época lutavam contra a pirataria de DVDs e na internet, o mercado deu uma esquentada com a notícia de uma ex-global entrando pro pornô. Era Leila Lopes, atriz gaúcha que ficou marcada na memória do Brasil por causa da personagem Professorinha Lu, da novela “Renascer”, de 1993.

Lutando contra a depressão e o ostracismo, Leila decidiu fechar um contrato de três filmes com a Brasileirinhas para tentar voltar aos holofotes. No entanto, a crise interna falou mais alto, resultando em uma tragédia que marcou para sempre quem se lembra da era do pornô com famosos.

Você pode ouvir o podcast “Brasil para Maiores” em plataformas como Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts, Amazon Music e YouTube.

Confira abaixo o roteiro do episódio 7:

Brasil Para Maiores – Episódio 6: O Império das Bundas

Aviso: Este programa contém linguagem forte, descrição de cenas explícitas e pode não ser adequado para todos os públicos. Este episódio também contém relatos de depressão e suicídio que podem ser sensíveis para algumas pessoas.

[Áudio entrevista Roy Di Paul]

Roy Di Paul: Pra gente um filme pornô era como qualquer outro filme, não tinha diferença.

Tiago: Nos anos 90, Roy Di Paul vivia a sua puberdade paulistana fissurado em três coisas: skate, punk e filmes da Buttman, aquela produtora que você viu surgir e afundar no episódio anterior.

[Áudio entrevista Roy Di Paul]

Roy: Ver o Buttman foi uma coisa que mudou e que eu falei “Putz, eu quero fazer isso”, entendeu? Eu falei que queria fazer isso o resto da minha vida. Naquela época, e a gente alugava, juntava uma molecada que estava andando de skate, parava, alugava um filme pornô, assistia.

Tiago: Assistir pornô entre 90 e boa parte dos anos 2000 era uma aventura: obrigava a pessoa a tomar atitudes extremas como sair de casa, ir até a locadora do bairro e, se não tivesse nenhum conhecido por perto, se enfiar em uma salinha secreta no canto da locadora onde ficavam as fitas pornô.

Só que quem era menor de idade, como o Roy daquela época, não podia alugar esse tipo de filme. O jeito era promover um troca-troca de fitas entre amigos e assistir, escondidos claro, na casa de alguém. Mas, diferente dos adolescentes médios que iam só até a fase dois dessa aventura, o Roy transformou o pornô em um projeto de vida.

[Áudio entrevista Roy Di Paul]

Roy: Bom, eu sou o Roy, criei a XPlastic em 1998 e continuo fazendo filmes até hoje.

Marie: A Xplastic é uma produtora que passou à margem do glamour, do dinheiro e das celebridades. É que a proposta da produtora era oferecer um pornô com mulheres diferentes daquele padrão mais Barbie da época. As estrelas das Xplastic até hoje são garotas tatuadas com um corpo normal, entre aspas, desses que a gente vê na rua todo dia.

Hoje é mais comum ver mulheres e homens tatuados, com corpos diferentes, mas isso era raro nos anos 2000, quando o elenco das produtoras era muito mais padronizado, no caso, essencialmente branco e super malhado. Mesmo indo contra a corrente estética daquele pornozão, a Xplastic foi uma das pouquíssimas sobreviventes da queda do pornô no final dos anos 2000 e é sobre essa fase de decadência o tema do nosso último episódio.

Talvez o que tenha salvado o Roy da falência, seja justamente o fato de ele não fazer pornô por dinheiro. Claro, é uma empresa que precisa lucrar, mas ele tem um discurso que a gente não ouviu de outros figurões da indústria. Ele realmente gosta de pornografia.

[Áudio entrevista Roy Di Paul]

Roy: Quando eu vi a Belladonna e a Sharon Stone, tipo, a Belladonna é mais importante pra mim, assim. E sempre foi uma relação com filme, com elenco, com todo mundo, de admiração. A gente nunca foi, assim, um punheteiro. Óbvio que a gente usava os filmes para se masturbar. Mas assim, além disso, a gente assistia filmes juntos, mas a gente nunca assistia filme junto do tipo “vamos bater punheta junto”. Tinha um respeito pelo filme, assim. Por mais bizarro que pareça, a gente gostava. Eu lembro que eu fazia umas coletâneas, quase sommelier de filme pornô, assim, sabe? A gente gostava mesmo. A gente chegava ao ponto de ver um figurino num filme e falar “putz, ela usou o mesmo figurino no filme tal”, sabe? No outro filme. Era a mesma admiração que a gente tem por , Star Wars”, por exemplo, a gente tinha por pornografia.

Marie: Mas a história do pornô alternativo brasileiro, esse com atrizes e atores fora do
padrão da época da Buttman e Brasileirinhas, não é o que a gente vai focar aqui. O que a gente quer trazer é a visão de outsider do Roy, hoje com 46 anos. É uma visão muito clara e honesta sobre quais eram os caminhos possíveis para o pornô de celebridades.

[Áudio entrevista Roy Di Paul]

Roy: Quando chegam as celebridades em 2004, foi meio que um choque. Meu primeiro contato foi quando eu vi que a Rita Cadillac ia fazer um filme pornô. E aí eu falei “nossa, o que vai acontecer agora?” “Rita Cadillac fazendo pornô”, eu falei “cara, ou vai dar um ‘boom’ e o pornô vai pegar muito e vai ter um público novo e o mercado inteiro vai crescer ou vai ser um desastre”, né? Vamos ver o que vai acontecer.

Marie: Ou alguém vai ser preso, né?

Roy: Alguém vai ser preso ou essas pessoas vão se arrepender muito depois, né? Porque não faz muito sentido alguém fazer pornografia sem ser do pornô alí e…

Marie: Olha, preso, até onde a gente sabe, ninguém foi. Mas teve coisa muito pior.

Eu sou a Marie Declercq.

Tiago: Eu sou o Tiago Dias e esse é o último episódio de Brasil para Maiores. Uma reportagem em áudio do UOL TAB que resgata a explosão da pornografia brasileira o surgimento e a queda do pornô de celebridades.

EPISÓDIO 7: A Queda

Tiago: No final dos anos 2000, nem mesmo o sucesso estrondoso que as celebridades causaram no segmento foi capaz de acabar com o problema da pirataria. Na verdade, incentivava ainda mais. Todo mundo queria ver a cena da Rita ou do Frota, mas ninguém comprava diretamente
com a produtora. Bastava sair de casa para encontrar uma banquinha de DVDs com o último lançamento da Brasileirinhas ou da Buttman.

Pra piorar a situação, no final da década os sites de streaming começaram a se popularizar. Isso significou que quem estivesse a fim de ver pornô não precisava nem mais sair de casa. Bastava ter um computador e uma conexão de internet.

E essa facilidade de ver pornô sem pagar teve um impacto rápido na indústria. Os lucros não eram mais os mesmos. E, por causa disso, as produções começaram a decair.

O Edson Strafite, produtor da Buttman, que você conheceu no episódio anterior, lembra como a pirataria afetou tudo, causando um efeito dominó em todo mercado.

[Áudio entrevista Edson Strafite]

Edson: Aí as locadoras paravam, e o ciclo começou a secar de trás para frente, né? A locadora não comprava mais o pacote de dez, porque a gente postava dez filmes novos todo mês. Começaram a escolher talvez o que eles achavam mais legais ou somente os nacionais que tinham uma saída melhor, não compravam o gringo. E com isso a gente produzia menos. É o mercado, né? Aí a pessoa que faz a capa, duplica a capa. O motel vai ter menos frequência, porque a gente vai gravar menos lá. Eles vão faturar menos. É um mercado muito grande que começou a diminuir o escoamento. E aí a produção começou a diminuir também. A gente começou a produzir menos filmes, a distribuir menos filmes. A gente produzia sempre dois ou três nacionais por mês. Pacote de dez geralmente eram sete gringos e dois ou três nacionais. E aí, de repente, a gente estava lançando seis filmes, no total do mês. Né, no pacote. Um nacional. Às vezes nem um nacional. Ou fazendo uma compilação de pegar cenas? Ah, um filme especial de tal atriz. Não produzia nada, né. Porque existia o contrato, né? Não fazia um novo filme. Você não estava investindo.

Tiago: Nessa mesma época, a Brasileirinhas também sentia os efeitos da internet e da pirataria. O jeito era continuar apostando na febre das celebridades para seguir vendendo bem. E em 2008, o mercado estava prestes a esquentar ainda mais com a chegada de uma atriz realmente global.

[Áudio Programa CQC]
Repórter: O CQC veio ao centro de São Paulo com um único objetivo: acompanhar o lançamento do primeiro filme erótico da atriz Leila Lopes, “Pecados e Tentações”. Quais serão os pecados e as tentações de Leila? É isso o que o CQC vai descobrir agora.

Tiago: A contratação da Leila foi um grande evento. Ninguém sabia, mas a atriz seria a última grande celebridade a entrar no universo dos filmes eróticos. Depois dela, vieram outras subcelebridades, mas ninguém com o calibre de uma ex-global.

Esse momento, ainda que sem querer, marcaria o fim de uma era. E o fim de sua própria vida.

Marie: Leila Lopes nasceu em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Ela estudou teatro e começou na TV no meio daquele boom de novelas com cenas picantes da Rede Manchete e não demorou para ser contratada pela Globo.

A Leila foi emendando algumas novelas de sucesso, mas a gente vai falar de uma personagem em especial que ficou muito marcada no imaginário do brasileiro. Em “Renascer”, de 93, Leila viveu a jovem Lu, mais conhecida como a “professorinha”, uma personagem que lutava pelos professores e pelas crianças.

[Áudio novela “Renascer”]
Professorinha Lu: Não fosse pelas crianças, eu já teria ido embora daqui, mas eu não posso deixar as pobres sem aula justo agora no meio do ano

Marie: A professorinha Lu roubou a cena. Ela era meiga, doce, idealista. E Leila, uma atriz jovem e belíssima. Aos olhos do público, a professorinha Lu e Leila eram praticamente a mesma pessoa.

[Áudio entrevista Leila Lopes]
Leila: Até me emociono falar da professorinha.

Marie: A personagem realmente mudou a vida dela.

[Áudio entrevista Leila Lopes]
Leila: Porque eu fiz a professorinha baseada na minha mãe, né. Minha mãe hoje não está mais aqui e a professorinha foi tudo pra mim. Era minha primeira novela das oito e estourou, aquelas coisas que a gente não explica, assim? o público se apaixonou, eu coloquei muito de mim ali, porque eu sou uma pessoa simples, muito tímida, ao contrário do que parece.

Marie: É claro que uma personagem dessas atraia crushes. E a Playboy logo sacou o apelo sexual por trás da meiguice da professorinha e chamou a Leila para posar nua. Leila recusou o convite da Playboy, mas acabou aceitando a mesma proposta quatro anos depois, quando estava na novela “O Rei do Gado”.

A Leila surfou na fama global no final dos anos 90, mas o novo milênio começou
com poucos convites. Até que apareceu a notícia da saída dela da Globo. Na época, a Leila prometeu revelar os motivos num futuro livro que acabou nunca saindo.

A partir dali, ninguém sabe muito bem o que aconteceu, mas fato é que em 2007, a Leila estava precisando de grana e ficou de olho nos cachês polpudos das colegas no pornô, especialmente quando soube que a Gretchen tinha embolsado 1 milhão de reais nessa empreitada.

O Cacau Oliver era assessor da Leila na época e lembra bastante do interesse dela pela grana.

[Áudio entrevista Cacau Oliver]
Cacau: Você tem que pensar um pouco sobre quando você fala das revistas masculinas, né? Você tava tendo alí um decréscimo dos valores. Aí de repente, você tem alí na mão as produtoras dos filmes que voltam a falar em cachês milionários. Então de certa forma isso atraiu muitas pessoas para o universo, né? Vamos também pensar que isso não é uma prática só do Brasil, né? Você tem celebridades também que ficaram famosas com sex tapes, né? A própria Kim Kardashian ficou famosa assim, não? Tem essa história da sex tape dela. A própria Paris Hilton, né? Então, assim, por mais que sejam caminhos duvidosos, que as pessoas possam dizer que não é esse o caminho, muita gente utilizou isso dos filmes para realmente voltar.

Marie: No caso da Leila, além da grana, o que ela queria mesmo de fato era voltar para TV. Uma pessoa contratada pela Leila fez essa ponte com a Brasileirinhas. Ele não quis falar em on com a gente, mas disse que Leila tinha uma cifra enorme na cabeça e resolveu meter o louco.

Ela pediu para a produtora um cachê de 2 milhões de reais, o que hoje daria mais de 6 milhões. Acontece que a pirataria já estava devorando os lucros altos dos anos anteriores e a produtora fez uma contra proposta de 450 mil por um pacote de cenas que renderia três filmes. Em valores atualizados, seria um cachê de 1 milhão e 400 mil reais.

A Leila ficou bastante ofendida e negou a oferta da Brasileirinhas, mas isso não durou muito tempo.

Tiago: Sem margem para negociar o valor, ela acabou topando, mas pediu em troca uma superprodução. Mostrou à equipe da Brasileirinhas a obra do escritor Nelson Rodrigues que retratava os desejos e a hipocrisia da classe média a partir dos anos 50. Ela queria que o filme fosse uma obra inspirada nesse universo literário. E assim foi feito.

Bem diferente de outras narrativas pornôs a protagonista aqui tinha nome e profundidade. Leila vivia Marlene, uma mulher provocante dos anos 50 com mãe, pai, irmã e empregada. Todos interpretados por atores comuns que só davam o texto e, claro, não participavam das cenas de sexo.

Tiago: O filme “Pecados e Tentações” começa ao som de um jazz sensual e tem até narrador em off:

[Áudio do filme]
Narrador: marlene estava feliz por ter voltado ao Brasil
Leila: que bom ver vocês de novo, meu pai, eu estava contando os minutos para voltar pra casa.
Pai: Avião é um perigo
Leila: Ë tão bom revê-los
Mãe: Fez boa viagem, filha?

Tiago: Depois de todo bla bla bla, ela cumprimenta o ator pornô Carlos Bazuca, que vive o Bentinho, primo de Marlene, que está prestes a virar padre. Bazuca foi escolhido a dedo pela Leila. Segundo ela, o ator tinha a “psiquê” pro papel.

[áudio do filme]
(som de beijo)
Leila: Meu primo preferido, quanto tempo falta para terminar?
Carlos: O seminário vai até dois anos

Tiago: Bom, nem precisa falar que o seminarista acaba o filme sem a batina…

As exigências da Leila foram atendidas e tudo parecia ir bem, mas?no fim das gravações, Leila hesitou diante da guinada na carreira e pediu para a Brasileirinhas segurar o lançamento. A produtora acatou. Durante esse período, Leila aproveitou a chance pra espalhar pra imprensa que em breve voltaria às novelas. Até aí, ninguém sabia que ela já tinha gravado um filme pornô.

Em uma entrevista dessa época, deu até detalhes da próxima personagem pra TV. Era tudo mentira. Segundo o assessor que ajudou a Leila a fechar o contrato com a Brasileirinhas, Leila não foi convidada pra novela nenhuma. O que ela queria mesmo era ganhar tempo.

Pra quê? Ninguém sabe. Tem quem aposte numa questão amorosa. Leila queria se separar do marido antes do lançamento do filme. Outros dizem que ela tinha esperança de receber um convite de verdade para voltar à TV – e o lançamento do filme podia melar qualquer chance disso acontecer.

Já era 2008 quando finalmente vazou na imprensa que Leila Lopes faria a sua estreia nos filmes de sexo explícito. Os sites de fofoca, nossa, ficaram em polvorosa. Ela negou as primeiras notícias, e disse que era apenas especulação. Mas pouco tempo depois, veio a confirmação, já com a data de lançamento pra dali a algumas semanas. A Brasileirinhas justificou: as negativas da Leila eram para não estragar o grande anúncio.

Marie: A Leila nunca falou publicamente sobre ter se arrependido de fazer pornô. Pelo contrário, ela dizia que só topou por ter recebido uma oferta irrecusável. Pra revista Época, por exemplo, ela disse que tinha recebido o maior cachê já pago na indústria, que é outra mentira como a gente viu. Na mídia, Leila se referia a “Pecados e Tentações” como uma obra ficcional, um filme como qualquer outro, mas que, por acaso, tinha uma ou outra cena de sexo explícito.

[Áudio de entrevista]
Entrevistadora: Na hora da cena como você se sentiu, como foi se entregar pra isso?
Leila: o pior foi depois da cena
Entrevistadora: por que depois?
Leila: Não importa se etsou na rede globo, na gazeta ou onde eu estiver, o que eu estiver fazendo, pra mim, é a coisa mais importante do mundo no momento. Então incorporei a Marlene e fui com tudo. Quando fiz a cena de sexo, eu estava incorporada na Marlene, era a Marlene que estava fazendo, e vou te dizer: botei pra quebrar, dei tudo de mim mesmo fiz uma cena de sexo que ninguém vai reclamar, com os limites que eu pedi para Brasileirinhas: olha essas coisas eu não faço. Agora, depois que eu tirei a Marlene de mim, porque a gente desincorpora mesmo, e fica o cavalo, que é a Leila Lopes.
Leila: É, quando eu me percebi que eu era a Leila Lopes, que eu tinha transado com um cara que eu não conhecia. Por que assim, eu não sou do tempo de ficar, eu não tenho mais vinte anos, essa coisa que acontece hoje em dia que as pessoas ficam na balada, conhece dez minutos e já sai, vai fazer amor. Eu saí dos braços do meu pai para o meu primeiro casamento. Minha vida sempre foi pautada por relacionamentos sérios, eu tive três casamentos e praticamente não namorei, eu não sei o que é isso, fazer amor com quem você não tem um envolvimento grande, um laço de alma. (…) Eu chorei muito depois que eu fiz, me senti invadida, me senti sim. Sorte que eu escolhi o Carlos Bazuca, que é um menino educado, cuidadoso.
Entrevistadora: Por que você escolheu ele?
Leila: Primeiro, porque ele era a cara do seminarista, não podia botar um homem no século 21, todo bombado, porque não ia ser a cara do personagem. E segundo, porque eu assisti várias cenas para escolher um parceiro, que fosse carinhoso, que fosse querido, que fosse uma pessoa amável, e eu percebi nele essa dedicação. Achei ele romântico. Eu queria um homem romântico para fazer a cena.

Tiago: O programa CQC, quando foi cobrir a festa de lançamento, bateu um papo com o Carlos Bazuca, que revelou ter ficado bastante nervoso com as exigências artísticas de Leila:

[Áudio entrevista CQC]
Repórter: Aquele alí é o Carlos Bazuca, ele foi o seminarista no filme que a Leila Lopes fez. Como que você se sentiu quando ficou sabendo que ia contracenar com uma atriz global?
Carlos: Fiquei um pouco assustado, senti um pouco o peso da responsabilidade, ela entrou de cabeça e?
Repórter: Ah, foi ela que entrou de cabeça?
Carlos: Sim, ela entrou de cabeça no projeto.

Marie: Na mesma festa, Leila tava bela e radiante, rindo de todas as piadas dos repórteres. Acho que vale dizer que ninguém pegava muito leve com as celebridades que estrelavam nos filmes pornôs e com a Leila não foi exceção. Ela parecia tirar de letra, ainda que desse pra sentir um fundo de incômodo pairando ali:

[Áudio entrevista CQC]
Repórter: Fazer um curta seria menos doloroso, né? Você acha que os homens vão te homenagear muito depois de eles assistirem ao filme?
Leila: Já estão me homenageando, está uma loucura na rua, não consigo sair na rua, estou fechada, solteira, fechada para balanço.
Repórter: Ah, Leila, que pena. Poxa vida.

Tiago: O filme rendeu duas sequências na mesma pegada Nelson Rodrigues: os filmes “Pecado sem Perdão” e “Pecado Final”. Na nova fase de carreira, Leila até assumiu uma pegada mais sensual e passou a apresentar um programa sobre os bastidores do pornô, o “Calcinha Justa”. Era inspirado no talk show “Saia Justa”, e passava no canal pago que a Brasileirinhas tinha na época, o Sex Privê.

Foi ali que ela apresentou a nova contratação da Brasileirinhas. O ex-BBB André Cowboy, vilão da nona edição do reality.

[Áudio entrevista Calcinha Justa]
André Cowboy: Tenho recebido muitos convites, fazer presença, fazer show ainda tenho uma dupla sertaneja que se chama Cowboys Sertanejo.
Leila: É mesmo? Mas agora eu vou contar o melhor de tudo, o bolso do cowboy vai encher, vai encher, sabe por que? Ah querido, ele é nosso coleguinha, é o novo contratado da Brasileirinhas.
Pamela Butt: Graças a deus, nosso patrão pegou um homem
Leila: Um casting maravilhoso, a Brasileirinhas é a maior do mundo, e a melhor do Brasil
André: Eu já sou fã da Brasileirinhas, já tive visto seu filme
Leila: Que bacana! Sua mulher deixa?
André: A gente vê junto

Tiago: Com a fama de caipira brigão, ele se envolveu em várias tretas e saiu do BBB com a popularidade em alta. Numa dessas tretas, escolheu duas participantes pra se vestirem de cachorras num dos castigos do programa. Seis meses depois de ser eliminado, ele assinou o contrato para estrelar o filme “André Cowboy e suas cachorras”.

A imprensa tava em cima e se deliciou com a história da esposa do Cowboy, que teria escolhido ela mesma as garotas com quem o marido ia atuar.

[Áudio entrevista Calcinha Justa]
André: ela falou assim, vou encarar como trabalho normal
Bruna Ferraz: tá certo
André: Eu tenho muito tempo de convivência, e eu te conheço, conheço seu caráter
Leila: por isso que eu digo, O filme não importa nada, o que importa é o caráter das pessoas
Tiago: Leila passou a defender a cena pornô como se defendesse a si mesma. Ela virou figura frequente nas festas da Brasileirinhas e, num pulo, o círculo de amizades dela passou a ser formado por um punhado de atrizes do universo pornô.

[Áudio entrevista Bruna Ferraz]
Bruna Ferraz: Ai, a gente estava gravando “Sem Calcinha”. Eu, a Pamela Butt, tinha mais alguém, ah esqueci a outra menina agora, meu Deus! Então, acho que eram quatro porque era igual da GNT, tipo? era “Papo Sem Calcinha”… Eu mesma ficava sem calcinha, já. [vai dando um fade out]

Tiago: Quem está falando aí é a Bruna Ferraz, que apresentava o “Calcinha Justa” com a Leila e com a Pamela Butt. Ela errou algumas vezes o nome do programa, né você viu, mas tudo bem. Bruna tinha uma boa relação com Leila e viu que a atriz estava passando por uma crise interna nesse período.

[Áudio entrevista Bruna Ferraz]
Bruna Ferraz: Por mais que ela seja da Globo, tenha feito novelas. Ela não era arrogante, ela não era prepotente, sabe? Ela tinha explicado o que ela tinha feito, ela tinha se arrependido. Ainda a gente falava pra ela: imagina, não tem do que se arrepender. E ela sempre com aquela coisa na cabeça, tipo: “ah e agora ninguém quer me ver, ninguém quer”. Não, a gente falava pra ela? “Não, mas calma, a Globo não te quer? Tem a Band, tem a Record, tem o SBT, tem a Rede TV”,

Marie: Enquanto tudo isso rolava com a Leila, a indústria pornô também estava lidando com a sua própria crise com a chegada do streaming. O Roy começou a apostar muito cedo na internet e, por isso, viu antes que as empresas mais tradicionais não estavam sequer preparadas para o baque dessas novas plataformas:

[Trecho entrevista Roy Di Paul]
Roy: Acho que faltou olhar o que estava vindo, sabe? É meio que o pessoal fazendo uma festa com um tsunami chegando ali, você deveria estar entrando no bote, e tava todo mundo ainda celebrando, sabe? E tava vindo o tsunami da Internet chegando, cara. Os sites começando a bombar no mundo inteiro e os caras vendendo DVD.

Marie: A partir de 2007, quando o XVideos e o PornHub foram criados, a pornografia nunca mais foi a mesma. Esses sites criaram uma facilidade, qualquer pessoa podia subir qualquer vídeo sem censura. Era tipo um Youtube da putaria.

Então imagina só: uma pessoa comprava o filme da Brasileirinhas e em vez de fazer uma cópia do DVD e vender em uma banquinha, ela subia o filme inteiro em um desses sites pra ficar disponível para milhares de internautas. Tudo na faixa, 0800.

Isso foi um golpe mundial. Produtoras fecharam em vários países, já que pagar por pornô não fazia mais sentido, porque, cedo ou tarde alguém colocaria isso de graça no streaming.

[Trecho entrevista Roy Di Paul]
Roy: O XVideos nasce em 2007 como pirataria é como se o XVideos tivesse sequestrado o filme de todo mundo ali e falando assim “então, agora eu vou pedir o resgate”, sabe? E aí o resgate é: eu vou lançar uma plataforma paga, vocês podem monetizar comigo, a gente divide, você continua produzindo e coloca aqui e agora… eles compraram, né? O XVideos comprou uma série de estúdios. O PornHub também, da Mindgeek, eles compraram uma série de estúdio. Era uma indústria muito pulverizada, né? A indústria pornô, sempre foi muito pulverizada, você não tinha grandes players enormes como você tem hoje.

Marie: O streaming bateu especialmente forte no pornô brasileiro. No final da década de 2000, empresas que existiam desde o começo dos anos 1990 como a Sexxxy, Introduction, Privat e As Panteras pararam de produzir filmes na mesma escala de antes.

O dinheiro secou, produtoras quebraram e quem ganhou dinheiro, ganhou. Quem não ganhou, não ganharia mais. A coisa ficou tão feia que a indústria não conseguiu nem mesmo voltar ao patamar que tinha antes do Frota sair por aí batendo na porta das produtoras. O clima já não era de festa. Enquanto todo o império do pornô de celebridades começava a ruir, Leila Lopes continuava a enfrentar o próprio universo em crise.

Em 2009, Leila sofreu uma série de problemas de saúde que resultaram em uma cirurgia de retirada do útero. Mas além das questões físicas, Leila tratava também de uma batalha interna. Segundo a Bruna Ferraz, colega dela na época, a tentativa frustrada de retomar a carreira de atriz de novela afetou muito Leila.

[Áudio entrevista Bruna Ferraz]
Bruna Ferraz: Ela já estava tendo um problema por causa da mente dela, porque ela foi uma grande atriz global. Então isso mexeu muito a cabeça dela, o psicológico dela, tipo e a Globo não queria mais ela, né? E ela colocou isso na cabeça dela. Ela foi mesmo se desestruturando. Como é que fala? Foi se martirizando, aquela coisa e tal. Mas quando a gente estava gravando, a gente estava sempre vendo ela mal, sempre passando mal, sempre passando mal, passando mal, sempre com morfina no corpo para ela aguentar.

Tiago: Por mais que a imprensa na época tenha tratado a entrada das celebridades no pornô como mais uma oportunidade de conquistar audiência, há um lado muito mais sombrio e triste nessas histórias, especialmente no lado das mulheres. A gente lembrou do que o Gugu Di Capri nos contou nas primeiras entrevistas pra essa série.

Marie: O Gugu trabalhou como maquiador de muitos filmes pornô, e essa função era muito especial não apenas para embelezar as atrizes, mas servia também como um lugar seguro para desabafos. Quando as atrizes se sentavam na frente dele no camarim, Gugu virava um confidente e não apenas um maquiador. Principalmente depois de alguma cena, quando ficava muito evidente o desconforto delas.

[Trecho entrevista Gugu Di Capri]
Gugu Di Capri: Aquilo me deixou em dúvida se eu estava fazendo um bom trabalho ou se eu estava no lugar errado. É porque mexe muito com o psicólogo das pessoas ver uma pessoa chorando por algo que era necessidade. Porque diferente de outras atrizes, que eu conheci, com quem eu trabalhei, que faziam por amor, conheci muitas garotas que faziam para pagar a faculdade, para se manterem bem, para ter uma vida financeira melhor. Mas percebi que muitas atrizes ficavam muito sensíveis depois da cena.

Tiago: Esse impacto que o Gugu tá falando vira e mexe apareceu nas entrevistas. Foi assim, com a Vivi Brunieri, que ganhou fama como ex-Ronaldinha e foi uma das estrelas do pornô nos anos 2000.

[áudio WhatsApp]
Vivi Brunieri: A primeira cena eu gravei com um ator chamado Vitor Gaúcho, que por sinal foi um querido no dia da gravação, porque eu chorei muito, né? Então borrava maquiagem, não conseguia gravar cena. E ele falou: “Não Vivi, né? Eu trabalho nesse ramo já há muito tempo e eu compreendo, eu sei o que você tá sentindo, então fica calma.

Vivi Brunieri: Foi tão forte, tão horrível que no ano seguinte do lançamento, né? Os filmes foram lançados em 2008. Ali em agosto mais ou menos. E no ano seguinte, em fevereiro, eu estava num quadro de depressão, distúrbio bipolar. Ao ponto de me internar e foi graças a essa internação que eu tive um encontro com Jesus. Quando eu caí na real, né, do que realmente era, que aquilo não ia ser apagado. O peso que aquilo tem, porque daí as pessoas te rotulam e é como se você nunca tivesse feito nada na vida a não ser aquilo, né?

Tiago: A Vivi também conheceu a Leila numa viagem que fizeram juntas pra divulgar os filmes.

[áudio WhatsApp]
Vivi Brunieri: Foi um evento que teve em Recife. Nós fomos pra lá. Também para fazer presença VIP. Na volta, no avião, nós sentamos uma do lado da outra. E ali tivemos uma conversa bem profunda mesmo, bem profunda. E algo que me chamou assim muita atenção, que ela falou: Vivi, eu trabalhei na Globo, né? Eu fui protagonista, eu tive um papel muito importante, ela falou pra mim, né? E na hora ela falou pra mim que está muito difícil, né? Digerir tudo isso, né? Porque hoje as pessoas estão me tratando como atriz pornô.

Vivi Brunieri: Ela falou: “Vivi, eu fiz pela grana, mas eu não estou suportando”. Foi a palavra que ela usou. “Eu não estou suportando”, né? E meses depois, nesse mesmo ano de 2009, ela tirou a própria vida.

Marie: Em dezembro de 2009, Leila Lopes foi encontrada morta em seu apartamento, no bairro do Morumbi, em São Paulo. Ao lado dela, estavam duas cartas endereçadas a amigos e família. Em nenhuma delas, foi citado o trabalho no pornô.

O Cacau Oliver, assessor da Leila, analisando o que aconteceu acha que ela nunca chegou a se desprender totalmente desse título de global. Isso bateu pra ela.

[Trecho entrevista Cacau Oliver]
Cacau Oliver: A Leila sempre foi uma pessoa muito determinada. Era uma pessoa ímpar em vários sentidos, né? Da personalidade dela. Eu acredito que ela como outras musas da época dela, elas vieram de uma época muito muito forte, né? Ela como personagem também. E se você olhar também outras musas dessa época. Não falando que elas seguiram o lance dos filmes. Mas você consegue perceber que elas têm histórias muito parecidas. Elas não conseguiram se manter na televisão e elas começaram a criar outros caminhos. Você percebe outras musas da época da Leila que estão hoje em plataformas. Que vendem conteúdo adulto. Que não deixa de ser uma forma de erotismo da mulher.

Marie: A morte da Leila caiu como uma bomba para todo mundo, especialmente para a Márcia Imperator que já era amiga dela antes da estreia na Brasileirinhas. E a gente viu esse impacto no dia que a Márcia foi para o estúdio gravar entrevista.

Ela estava toda sorridente, alegre e fazendo piada e o único momento que a Márcia se abalou mesmo foi falando da amiga.

[Trecho de entrevista Márcia Imperator]
Márcia Imperator: A partir do momento que a gente se encontrou, a gente se encaixou, e ela era muito carinhosa, sempre glamourosa, sempre sorridente, brincando, ela não deixava transparecer fraqueza. Em nada. Em nada, você olhava pra ela e pensava: essa mulher não tem um pêlo encravado. E ela tinha muito mais que um pelo encravado. Eu encontrei com a Leila, eu acho que uns dois, três meses antes do, antes do, dela, ah?
Marie: É bem, é, enfim, a gente tocou num assunto que pega bastante assim, você tinha muito carinho por ela, né?
Márcia: É ruim porque assim, ó, a que ponto chega o ser humano para fazer isso? Onde a gente podia ter ajudado? Onde a gente podia ter contribuído para que ela não fizesse isso? Onde a gente podia ter ela aqui ainda? Por isso que às vezes eu falo, novamente, assim tipo ninguém vê o meu problema que eu tenho em casa. Tu quer que eu chegue aqui e eu seja sorridente, eu fale da minha vida, eu esteja bem arrumada, bem perfumada, mas você não quer saber se eu almocei, se eu tenho as minhas contas em casa pagas ou se eu devo pra Deus e o mundo e estou desesperada. Entendeu?

Marie: A morte de Leila não afetou financeiramente o mercado pornô do Brasil, mas acabou sendo bastante simbólica para marcar o final definitivo da era de celebridades. Pra completar, em 2011, outro famoso dessa era, o ex-BBB André cowboy, também morreu. Ele foi assassinado misteriosamente, e o caso continua até hoje sem resposta.

A Brasileirinhas sempre teve o costume de reaproveitar as cenas gravadas em novos filmes, só que ela desistiu da ideia logo que foi anunciada a morte de Leila. Não que eles fossem bonzinhos, é que pegaria mal mesmo tentar lucrar em cima de uma história tão trágica.

Mesmo que não seja por causa da Leila, tudo mudou. Em 2010, Luis Alvarenga vendeu a Brasileirinhas pro Clayton Nunes. Quando assumiu o comando, Clayton parou de vez com a produção tradicional de filmes e decidiu investir na produção de conteúdo na internet com o reality show Casa das Brasileirinhas – aquele que a gente foi conhecer no segundo episódio, sabe?

Mas isso não significa que a Brasileirinhas está blindada. A pirataria na internet ainda é a maior inimiga da produtora. A ponto de a Brasileirinhas ter até uma funcionária que passa o dia inteiro no XVideos e PornHub derrubando vídeos publicados sem autorização da produtora.

[Áudio entrevista Clayton Nunes]
Clayton Nunes: O dia inteiro secando gelo. Parece que eles redirecionam o link. Eles tiram daquele link e sobem pro outro. Não tem? Parece robô. Entendeu? Você tira hoje o link pirata do seu vídeo. Você manda a notificação pro XVideos. “Ó! Esse vídeo é meu”. Eles desligam aquele link aí você pode pesquisar no site deles. Apareceu aquele mesmo filme em outro lugar.

Tiago: Secar gelo parece uma expressão perfeita para descrever o trabalho de quem faz pornô e quer continuar ganhando grana com isso. E novas crises não param de chegar. Em 2022, por exemplo, a Brasileirinhas entrou na justiça contra o grupo Meta, responsável pelo Facebook e Instagram, que deletou a página oficial da produtora no Instagram por violação de conteúdo. A Brasileirinhas ganhou em primeira instância, mas o Instagram não cumpriu a determinação da justiça brasileira.

A Brasileirinhas também acabou suspendendo as atividades por causa de um problema com a PagSeguro que encerrou o contrato com a produtora e não processa mais os pagamentos dos 20 mil assinantes do site. Segundo a empresa financeira, a rescisão se deu por “ausência de interesse comercial”.

Marie: O conflito entre o pornô, as redes sociais e as instituições financeiras não é pessoal com a Brasileirinhas. Esse tipo de banimento tem sido bastante comum nos últimos anos. Vários atores e atrizes pornô perderam suas contas nas redes sociais mesmo não tendo postado nada explícito. Em 2020, o cerco contra a pornografia na internet fechou ainda mais quando as principais empresas de cartão de crédito suspenderam o pagamento em sites de streaming pornô depois que um artigo do New York Times denunciou o PornHub por permitir que vídeos de pornô de vingança e abuso infantil ficassem no ar.

Essas suspensões geraram um efeito dominó em todo o mercado. A crise das Brasileirinhas é sinal de uma nova era tecnológica que está muito menos permissiva do que era lá no começo da internet com o conteúdo adulto.

Mas a Brasileirinhas não é uma empresa multimilionária. A gente contou que ela sobreviveu à crise das locadoras, da pirataria de DVDs e da chegada da internet – mas sempre diminuindo de tamanho para sobreviver. Vamos ver agora se ela vai conseguir se adaptar nessa nova fase.

Tiago: Quando essa era chegou ao fim, os grandes nomes da época começaram a buscar outras formas de sobreviver e permanecer sob os holofotes. Rita Cadillac, Gretchen, Marcos Oliver tentaram entrar na política, mas ninguém foi eleito. É engraçado a gente notar como a política sempre é cogitada como próxima aposta na carreira dessa galera. Assim como foi o pornô lá nos anos 2000.

Mas nem tudo acabou mal.

No final das contas, Rita e Gretchen nunca deixaram de ser famosas. Gretchen virou meme, ícone gay. A Rita faz OnlyFans, trabalha como atriz de comédia. Mateus Carrieri seguiu nos palcos de teatro e trabalha como dublador. Demorou, mas eles conseguiram contornar quase todo o estigma do pornô.

O Roy, que via tudo isso de fora, enxerga uma coisa em comum em todas essas celebridades: a busca pela redenção.

[Áudio entrevista Roy Di Paul]
Roy: Parece que as pessoas gostam de falar que elas odeiam porque elas se sentem mais limpas, né? É como se pornô fosse um negócio sujo e quando você fala que odeia aquilo aí você é meio que perdoado. Se você falar que gosta, você é amaldiçoado. Mas se você falar que odeia e faz por dinheiro, aí tudo bem, um dia talvez você vá se redimir.

O Frota, claro, viveu três vidas diferentes depois da sua saída da pornografia em 2009. A mais surpreendente foi a entrada na política em 2018 como aliado bolsonarista. Talvez por ser um acúmulo de personas contraditórias o Frota concentra ainda os maiores ataques por ser um ex-ator pornô. Já no caso do mercado pornô, poucos souberam aproveitar a época de vacas gordas.

Como a gente viu, algumas produtoras não se modernizaram achando que aquela era de ouro duraria pra sempre. E mesmo quem ainda está na ativa tem dificuldade para se manter.

[Áudio entrevista Roy Di Paul]
Roy: A Brasileirinhas criou uma marca muito forte, foi beneficiada. Mas tipo, pensando na indústria, eu acho que não aumentou não mudou de patamar a indústria pornô e acho que um suicídio dela é meio que simbólico, assim mesmo,
como o fim de uma era aí das celebridades.
Tiago: O sonho acabou, assim, né?
Roy: É, o sonho acabou.
Marie: E acaba provando um ponto, né, do estigma que “ai, tá vendo o que acontece com quem faz pornografia”, fica aquela coisa, né?
Roy: Fica meio moralista, né? O final meio moralista. “Olha, quem faz isso se dá mal”, o que é mais triste ainda, né?

Tiago: É Roy…o sonho acabou mesmo. E o único legado foi marcar uma geração e a maneira como a gente se relaciona com pornografia. A gente pode discutir o quanto ela pode fazer mal mas a verdade é hoje em dia ficou bem mais comum ver gente produzindo pornografia ou qualquer conteúdo erótico.

Está tudo nas redes sociais, seja no Twitter, no Instagram, ou no Onlyfans. E assim como Frota ensinou, lá em 2004, famosos e influenciadores apostam nisso para bombar e ganhar uma grana até hoje.

Marie: Mas daquela fase glamourosa, restaram apenas resquícios, trechos de vídeos de baixa qualidade no XVideos, uma sala empoeirada cheia de fitas esquecidas, lembranças confusas de quem foi testemunha dessa era e o catálogo de atores e atrizes, ainda no ar, no site da Brasileirinhas.

Os verbetes de Frota, Gretchen, Rita, Leila e todas as outras celebridades ainda estão ali, como se tivessem sido congeladas no tempo naquela expressão de glória e clímax, como se nada tivesse mudado desde então.

Como se o sonho das celebridades na pornografia, um sonho bem brasileiro, nunca tivesse acabado.

Caso esteja passando por um momento difícil procure o CVV, o Centro de Valorização da Vida. Ligue 188.

Este foi o podcast Brasil para Maiores. Uma reportagem em áudio do UOL TAB que resgatou a explosão da pornografia brasileira o surgimento e a queda do pornô de celebridades.

[Créditos]
O podcast “Brasil para Maiores” tem apresentação, roteiro e pesquisa de Marie Declercq e Tiago Dias. O roteiro também foi feito por Fernando Cespedes que adaptou o projeto para podcast. O desenho de som e a montagem são do João Pedro Pinheiro. A produção é da Marie Declercq, da Natália Mota e do Tiago Dias. O design é do Marcos Antonio Alves de Lima Júnior. A direção de arte é da Gisele Pungan e do René Cardillo. A coordenação é da Juliana Carpanez e da Olívia Fraga. O projeto também conta com Alexandre Gimenez e Antoine Morel, gerentes de conteúdo, e Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL.